Projecto Memória [a partir da apropriação de imagens]

Projecto Memória [2010]

Pop Art

Apropriação de imagens

[em instalação]

Projecto Memória [2014]

Luso-Tropicalismo


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Projecto Memória [2014]

This is not photography

Ilustrações construídas a partir de imagens originais de outos tempos.

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A evolução das sociedades na segunda metade do século XX clarifica a importância do papel que a memória colectiva desempenha. Exorbitando a história como ciência e como culto público, ao mesmo tempo a montante enquanto reservatório (móvel) da história, rico em arquivos e em documentos/monumentos, e a aval, eco sonoro (e vivo) do trabalho histórico, a memoria colectiva faz parte das grandes questões das sociedades desenvolvidas e das sociedades em vias de desenvolvimento, das classes dominantes e das classes dominadas, lutando todas pelo poder ou pela vida, pela sobrevivência e pela promoção.

Mais que nunca, são verdadeiras as palavras de Leroi-Gourhan: “A partir do Homo Sapiens, a constituição de uma utensilagem da memoria social domina todos os problemas da evolução humana”; e ainda: “A tradição é biologicamente tão indispensável à espécie humana como o condicionamento genético o é às sociedades de insectos: a sobrevivência étnica funda-se na rotina, o diálogo que se estabelece suscita o equilíbrio entre rotina e progresso, simbolizando a rotina o capital necessário à sobrevivência do grupo, o progresso, a intervenção das inovações individuais para uma sobrevivência melhorada”. A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou colectiva, cuja busca é uma das actividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.

Mas a memória colectiva é não somente uma conquista, é também um instrumento e um objectivo de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que estão em vias de constituir uma memória colectiva escrita que melhor permitem compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta manifestação da memória.

O caso da historiografia etrusca constitui talvez a ilustração de uma memória colectiva tão estreitamente ligada a uma classe social dominante que a identificação dessa classe com a nação significou ausência de memória, quando a nação desapareceu: “Não conhecemos os etruscos, no plano literário,  a não ser por intermédio dos gregos e dos romanos: não nos chegou nenhuma relação histórica, admitindo que esta tenha existindo. Talvez as suas tradições históricas ou para-históricas nacionais tenham desaparecido com a aristocracia que parece ter sido depositária do património moral, jurídico e religioso da sua nação. Quando esta deixou de existir enquanto nação autónoma, os etruscos perderam, ao que parece, a consciência do seu passado, ou seja, de si mesmos”.

Veyne, estudando a evergetismo grego e romano, mostrou admiravelmente como os ricos “sacrificaram então uma parte da sua fortuna para deixar uma recordação do seu papel”, e como, no Império Romano, o imperador monopolizou o evergetismo e, ao mesmo tempo, a memoria colectiva: “sozinho, manda construir todos os edifícios públicos (à excepção dos monumentos que o senado e o povo romano erguem  em sua honra). E o senado vingar-se-á por vezes pela destruição desta memoria imperial.

Balandier fornece o exemplo dos Beti dos Camarões, para evocar a manipulação das “genealogias” cujo papel na memória colectiva  dos povos sem escrita se conhece: “Num estudo inédito consagrado aos Beti dos Camarões meridionais, o escritor Mongo Beti relata e ilustra a estratégia que permite aos indivíduos ambiciosos e empreendedores “adaptar” as genealogias a fim de legalizar uma preponderância contestável”.

Nas sociedades desenvolvidas, os novos arquivos (arquivos orais, arquivos do áudio-visual) não escaparam à vigilância dos governantes, mesmo se podem controlar esta memória tão estreitamente como os novos utensílios de produção desta memoria, nomeadamente a rádio e a televisão.

Cabe, com efeito; aos profissionais científicos da memória, antropólogos, historiadores, jornalistas, sociólogos, fazer da luta pela democratização da memoria social, um dos imperativos prioritários da sua objectividade científica. Inspirando-se em Ranger (1977), que denunciou a subordinação da antropologia africana tradicional às fontes “elitistas” e nomeadamente às “geneologias” manipuladas pelos clãs dominantes, Triulzi convidou à pesquisa da memória do “homem comum” africano. Desejou o recurso, na África, como na Europa, “às recordações familiares, às histórias locais, de clã, de conhecimentos não oficiais, não institucionalizados, que ainda não se cristalizaram em tradições formais... que de algum modo representam a consciência colectiva de grupos inteiros (famílias, aldeias) ou de indivíduos (recordações e experiências pessoais), contrapondo-se a um conhecimento privatizado e monopolizado por grupos precisos em defesa de interesses constituídos”.

A memória, onde cresce a história, que por sua vez alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memoria colectiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.

"Memória", Jacques Le Goff


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